Consequências da iliteracia sobre a Morte - A Ausência do Amor

                                                            


Trabalhar em Cuidados Paliativos pode ser muito desafiante. Principalmente em internamento. Muitos, na sua iliteracia experiencial deste tipo de filosofia de vida e acompanhamentos, podem comentar que é pela morte em si mesma. Que é pesado porque acompanho na fase final da vida (sejam anos, semanas, dias). Dizem isto porque, infelizmente, culturalmente, socialmente, associamos a morte a um fardo pesado. 

Mas a Morte é uma Senhora Montanha que nós temos à nossa frente todos os dias. Abrimos a janela da nossa casa e ela é paisagem principal. Está mesmo à nossa frente. Caminhamos com ela todos os dias. É ela que nos nutre todos os dias. Que nos interpela, como uma mãe, indicando-nos a direção do caminho mais suave, com mais sentido, com mais significado e propósito. É Ela que nos dá o músculo, a resiliência física para a subir e descer. O alimento corporal e espiritual para nos alimentar.

 Mas olhamos para esta Montanha majestosa com olhos pesados e de sofrimento. Espelhando-lhe a nossa psique, o nosso medo. Mas não a realidade do que Ela É. 

A Montanha apesar de estar visível para que qualquer um de nós a possa vislumbrar (por isso uso propositadamente o termo montanha e não uma caverna) nunca é falada. É coberta de um manto de fuga, dissociação coletiva, luta sanguinária emocional que depois se repercute, literalmente, na forma como acompanhamos quem amamos. Lutamos para que quem “amamos” fique quando a alma já não cabe mais no seu corpo. Alma que quer nascer na direção do “Espírito”. Atacamos quem tenta se intrometer no nosso caminho, cegos de dor, ou dissociamos e fingimos que nada se passa. Recusamos escutar as palavras “vai morrer”, está a morrer”, “está na sua fase final de vida”, na esperança de que se não ouvirmos nada se materializa e continuamos a fazer exatamente a mesma coisa aos nossos familiares como nada estivesse diferente. Como se nada de especial e importante estivesse a acontecer. Vivemos numa presença ausente. Isto tem repercussões no luto, individual e coletivamente. Tem repercussões na forma como o nosso familiar vive este Seu momento especial e nasce para o “Espírito”.


Trabalhar em Cuidados Paliativos pode ser muito desafiante porque a sociedade, a nossa cultura, o sistema de saúde e educativo, as famílias, os amigos, os conhecidos de quem está a morrer, podem carregar no seu sistema nervoso formas de presença que são sinónimos de cenários de guerra. E isto repercute-se no meu sistema nervoso que recebe esta informação. É cansativo presenciar e sentir constantemente estas lutas, a cegueira, a ignorância, o Sofrimento que nos causamos a nós mesmos.

A Morte não é sinónimo de Guerra. É o oposto.

Chegar ao pico da Montanha da nossa Vida, seja qual o tempo da sua existência aqui neste plano material, é um caminho comum a todos nós. Podemos ficar adormecidos e inconscientes para esta Verdade Cósmica da Vida e isso tem as suas consequências. Escolhemos não nos nutrir e aprender as ferramentas fundamentais para podermos subir a Montanha. 

- Quem escolhemos que suba connosco? 

- Quem nos ajudará nas dificuldades, nas entorses da vida? 

- Quem nos ajuda quando queremos desistir? 

- Quem nos ajuda quando queremos descansar? 

- Quem nos ama ao ponto de nos fazer crescer, aprender, ensinar, permitir transformar na nossa nova e melhor versão, a cada momento? 

- Quem nos permite ser livres para sairmos do nosso casulo, permitindo-nos fazer crescer os músculos emocionais, físicos, espirituais, relacionais da resiliência? 

- Quem nos Ama para sermos Livres para ir ao encontro de "Deus" noutro plano que não este e nos sabe acompanhar fisicamente, emocionalmente, espiritualmente nesta viagem?


Sentir a ausência de Amor cansa. Porque mais do que dizer que amamos é fundamental sabermos Amar. E a Compaixão anda sempre aliada à sabedoria. A maior parte de nós é ainda apenas uma criança muito pequena, diria até que acabada de nascer, e que não quer crescer. Somos adultos que agem como crianças pequenas que se recusam a olhar a realidade da Vida e a fazer parte dela.

A Morte faz-nos Crescer. Assumir responsabilidade individual e coletiva. Propósito. Sentido de Vida. Amor. Compaixão.

Morte é Vida.






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