“O Futuro começa diminuindo as distâncias... até onde o braço alcança.” (EcoUni)

 

O Futuro começa diminuindo as distâncias... até onde o braço alcança.”

(EcoUni)


Há uns dias recebi um e-mail que abordava a importância dos projetos locais. Abria o texto com a frase: “O futuro começa diminuindo as distâncias... até onde o braço alcança.” Comecei a refletir sobre todas as iniciativas e sobre a visão de pessoas singulares que procuram deixar sementes construtivas e regeneradoras num mundo que parece focado e fixado na dor. Ecoou em mim a minha própria necessidade de o fazer através do projeto da Comunidade de Doulas do Fim da Vida em Portugal.

Este projeto surgiu de olhar para a dor — e não de a excluir da minha existência — como propulsora de horizontes e não de muros face aos desafios do nosso tempo. Existem pessoas comuns a procurar realizar transformações importantes. Parafraseando o que li da EcoUni:
“Enquanto as notícias falam de crise climática, insegurança e desigualdade económica, nos territórios podemos encontrar soluções. Redes que sustentam o cuidado. Essas iniciativas não são exceções. São soluções de base. São respostas a um cenário concreto.”

É muito fácil ficarmos presos na dor. Muito fácil mesmo. E aqui também falo na primeira pessoa. É muito comum sermos alimentados — e alimentarmos — o vórtice da dor. O alimento que muitas vezes chega até nós é o do desempoderamento. A ideia de que não podemos fazer nada.

Mas será mesmo assim?

Não dependerá também da forma como decidimos agir? Do que escolhemos fazer em prol da nossa comunidade? Localmente? Ao olharmos para a “dor”, o que decidimos fazer com ela? Será que temos a coragem de lhe perguntar:

“Dóis-me. Muito. O que queres que faça através de ti?”

Todas as redes são sustentadas por ligações a pontos comuns. Tal como uma tapeçaria. Ponto a ponto se cria um lindo bordado. Do lado oposto do pano, ao desenho bordado, podemos ver os nós — pontos menos bonitos — mas que, no resultado final, operam e espelham uma linda obra.

Assim é com as pessoas e com os projetos.

Sonhamos — e o sonho dá trabalho. Implica resiliência e paciência. Frustrações. Inquietações. Muitas vezes temos de desmanchar e reconstruir pontos que demos, para voltar a bordar outros novos que correspondam melhor à nossa visão final. E isto acontece mais do que uma vez.

Construir e visionar um mundo mais amoroso e compassivo não é isento de olhar para a dor desse mesmo mundo. Para a nossa própria dor. Antes pelo contrário. Implica mergulhar nela para que possamos escolher caminhar, com experiência viva desse mesmo amor e compaixão, através da dor — mas não para ficarmos presos a ela.

Muito do que vemos noticiado, e que chega até nós através das redes informativas mundiais, pode fazer-nos submergir na dor — e até pode haver a intenção de o provocar. Quando ficamos mergulhados e afogados na dor, deixamos de pensar, de sonhar, de ter força para querer mudar. É como uma depressão profunda.

Muito do que vemos à nossa volta — localmente, nos nossos trabalhos, na saúde, nas relações — também pode ter esse impacto.

“Não posso fazer nada para mudar isto!”

Contrabalançar este vórtice com ação colaborativa, unindo esforços e pontos comuns para construir uma linda tapeçaria, é a resposta.

O projeto de Doulas do Fim da Vida é um projeto “tapeçaria”, com esta mesma visão. É uma rede de apoio, de esperança e de ação. É uma rede de cuidado.

Nas palavras do professor e médico de cuidados paliativos Alexandre Silva:
“Se não aprendermos a construir uma rede de apoio e a implicarmo-nos no cuidado uns dos outros, mais pessoas continuarão a viver e morrer sozinhas. A maior pobreza do nosso tempo não é a falta de dinheiro. É a solidão.”

Solidão que alimenta solidão. Dor que alimenta dor. Até se tornar uma história de gerações que está a parir pessoas que, precisamente para se defenderem da sua dor, trazem dor ao mundo. Parece paradoxal, mas quando carregamos dor dentro de nós é isso que oferecemos aos outros.

Criar laços de cuidado é revolucionário.

Através do projeto da Comunidade de Doulas do Fim da Vida, procuramos construir um modelo de referência de cuidado humanizado, acolhedor e sensível, oferecendo um suporte holístico que contribua para um processo de morte que celebra a vida e a transição de forma serena, respeitosa e compassiva.

Procuramos ser um ponto de apoio e de referência para aqueles que buscam uma morte consciente, livre de sofrimento desnecessário, e ser agentes de transformação na forma como a sociedade olha para a morte.

Contribuir para um mundo onde as pessoas possam morrer de forma consciente, respeitosa e em harmonia com os seus valores, alicerçando uma cultura que vê a morte como parte de uma jornada contínua e sagrada.

Contribuir para a humanização do cuidado no fim da vida e no luto, ampliando a consciência sobre a morte como parte natural da existência.

Morte que gera Vida. Relação. Cuidado.

Faz a tua parte e junta-te a esta tapeçaria. Do teu jeitinho. Com a tua vocação e as tuas habilidades inatas.

Não sabes como ajudar um familiar que está em fim de vida? Entra em contacto connosco.

Sabes que um familiar está próximo do fim da vida e sem o suporte necessário? Existem formas de acolher este momento no meio familiar. Procura o nosso apoio.

Tens dúvidas, medos ou mitos sobre o processo de fim de vida? Pergunta e mergulha connosco nas nossas ofertas formativas. Procura uma doula que te possa apoiar e esclarecer.

Queres contribuir e não sabes como? Fala connosco. Podemos dar mais um ponto na nossa tapeçaria de cuidados.

Dá o passo que só tu podes dar.

Ana

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