Viver os Contraditórios - Corpo que decresce e alma que expande
Envelhecer é uma ação, um movimento da vida que está associado ao decrescimento do corpo. Existe naturalmente e gradualmente uma perda gradual de energia. Isso manifesta-se no físico. É inegável. Se não queremos morrer inevitavelmente iremos envelhecer...e, imaginem só, morrer na mesma.
Não pensar no envelhecimento faz com que as consequências desta diminuição de energia sejam vividas de uma forma mais amarga. Mais desesperada. Com mais medo. Com menos compaixão e amor pelo nosso corpo inclusivamente. De repente parece que ele se virou contra nós. Virou doença. Virou guerra e temos que o combater. Procuramos contradizer este movimento natural através do anti-envelhecimento.
Ninguém pode negar a diminuição da massa muscular, as alterações hormonais, a diminuição da flexibilidade articular, o aumento do cansaço, as alterações cognitivas, etc. Mas é possível, ao olharmos esta realidade sem nos dissociarmos dela, sem nos congelarmos numa idade fictícia, conseguir preparar-nos para a viver com maior serenidade, conforto, prazer, dignidade. É incrível como conseguimos apreciar a estação do outono, com a sua incomensurável beleza, mas o nosso outono virou uma catástrofe humana anti-natural. Porque usamos a palavra anti-envelhecimento quando poderíamos usar a medicina do envelhecimento saudável. Nós não anti-envelhecemos, certo? Assumir que envelhecemos é o que nos conduz ao deleite do corpo enquanto ele faz o que a sua natureza sabe fazer.
Gostava que pudessem criar uma imagem através do texto que deixo abaixo:
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Nascemos de um útero, a quem chamamos de nossa mãe.
Útero de água que nos embala o corpo enrolado na posição fetal. Conforto. Tranquilidade. Proteção. Nutrição. Quietude. Lentidão. Introspeção da alma. E a este espaço procuramos voltar inúmeras vezes, naturalmente, ao longo da nossa vida. Porque será que tememos esta paragem?
Convulsões e tremores de terra acordam o nosso corpo terra. Acordai, dizem. Ondas dolorosas de calor que nos irão fazer receber o ar e respirar. Que nos irão permitir ter força para nos alimentar. Que nos irão permitir viver com saúde. O que chamamos de nascimento para este plano.
Progressivamente iremos deixar esta posição de conforto para nos erguermos para a vida, na posição vertical. A racionalidade é precisa. Precisamos ativá-la para além da emoção, para além da energia emocional e contemplativa, com a qual nascemos. Endireitamos o corpo em direção ao sol. Crescemos para cima. Tornamo-nos seres ativos e pro-ativos. Esquecemos, quase em amnésia coletiva, o espaço do útero tão precioso e que nos nutre de tantas formas.
Ao longo do tempo, no entanto, a energia que nos habita desde que nascemos, começa a decrescer. Progressivamente vai sendo devolvida. A água que nos habita também decresce. Nota-se na nossa pele. Devolvemos o sopro. Devolvemos a água. Devolvemos o fogo. E o nosso corpo vai progressivamente aproximando-se da Terra. Do útero. Encurvando-se. Voltando à posição fetal, mesmo que energeticamente apenas. Relembrando a força contemplativa e introspetiva da nossa alma, com a qual nascemos, e que muitas vezes esquecemos, em prol da proatividade social e consumo.
Somos criança, adulto e ancião. Dentro de nós habitam o espaço da ação e da inação. Habitam todas as estações do ano, por vezes numa hora apenas.
Procuramos a cura da criança interior. Relembro que precisamos ouvir o ancião que ecoa na nossa caverna escondida e que anda de mãos dadas com a criança. São um só.
E é assim que morremos. Na posição fetal. Quando a criança se une ao ancião novamente e entregam, através das contrações da morte, o seu sopro de vida a Deus. O Corpo Útero da nossa Mãe.
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Agora gostaria que pudéssemos refletir na divisão de caminhos onde nos colocamos:
Envelhecer ou evoluir?
Envelhecer ou expandir? A abrir, dilatar, dissolver, ampliar quem somos?
Haverá alguma diferença entre uma coisa e outra?
In-vetul-escere
Envelhecer é tornar-se velho. Passar a ser algo.
Tornar-se. Passar.
Porquê separar um movimento de outro quando se podem encontrar? Não serão o mesmo caminho?
Envelhecer E evoluir, expandir, abrir, dilatar, dissolver, ampliar, alastrar, desenvolver…
O que sai também entra.
O que sobe também está a descer.
O que nasce encontra a morte. O que morre nasce.
O que esvazia também enche.
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Abaixo da linha do meio, da linha da água, está a lua. Energia feminina, intuitiva, contemplativa, reflexiva, imaterial, emocional. Sente-se no corpo. Não se vê.
Nascemos dentro do útero de mar profundo da nossa mãe. Nascemos em direção ao sol. Energia masculina. Matéria, concretização, realização. Raízes que crescem para baixo permitindo a expansão para cima.
Uma não existe sem a outra. O que está em baixo não existe sem o que está acima. O que está acima não É sem o que está em baixo.
Kalunga separa o que está acima e o que está abaixo. Separa o mundo comum, visível, do mundo invisível e misterioso.
Quando envelhecemos começamos a retornar às profundezas do mar. Ao útero materno. Nascemos da Mãe e começamos a voltar à Mãe. Nascemos do Pai e em direção a Ele começamos a caminhar também.
Pelo menos somos convidados a fazê-lo. Mas não vivemos assim. A experiência de estar vivo é a experiência do decrescer também. De observar o envelhecimento do corpo e a expansão da nossa alma. O corpo desce e a alma sobe. Imanência e transcendência.
Clyde Ford diz que o papel do ancião é ser o guia. Aquele que aponta o caminho interior para a viagem espiritual. Liga o que está em baixo e em cima. Mas primeiro tem que fazer a sua própria viagem.
Corpo que decresce e alma que expande.
Quanto mais crescem as raízes mais a copa chega ao céu.
Quando mais se aprofundam as raízes mais frutos e sementes nutrem a vida.
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O corpo ao envelhecer perde energia. E a alma?
À medida que vamos caminhando a Vida, a alma vai sendo preenchida por incontáveis experiências e aprendizagens. Vai crescendo. Expandindo.
O corpo envelhece, decresce, e a alma cresce.
Envelhecer E evoluir são um só caminho.
Decrescer e expandir, abrir, dilatar, dissolver, ampliar, alastrar, desenvolver…
Onde o movimento de envelhecer em ti se encontra com a tua expansão?
Onde é que o movimento de aproximação com a Terra em ti, com o aprofundamento das tuas raízes, se encontra com o movimento de ascensão da tua copa? Onde é que o imanente em ti se encontra com o transcendente à medida que envelheces?
Permites que o movimento de expansão da tua alma aconteça?
Quando morremos ativamente começamos a parir a nossa alma que já não cabe mais nele.

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