Não quero que “ele morra sozinho!”
Não quero que “ele morra sozinho!”
Esta é uma frase que escuto com frequência e que revela a necessidade de refletirmos sobre o processo de morrer e o lugar de quem acompanha.
Nem sempre a presença física corresponde àquilo de que a pessoa necessita. Por vezes, projetamos no outro os nossos próprios medos, inseguranças e necessidade de controlo, dificultando uma escuta mais sensível e ajustada ao processo individual de quem está a morrer.
Quem está a fazer esta passagem vive um processo interno muito intenso — muitas vezes não de forma consciente ou racional. Está a processar informação que ficou armazenada no corpo somático e, à medida que o cérebro racional vai perdendo capacidades (onde o ego habita e a sua necessidade de controlo), o cérebro emocional e mais primitivo ganha espaço.
Desta forma, tudo aquilo que fomos guardando em “gavetas” — e que pensávamos estar esquecido — tem a oportunidade de emergir à superfície, através do corpo, para ser transformado. O corpo sabe transmutar naturalmente.
Não nos podemos esquecer de que quem está a morrer tem de se despedir de tudo o que o liga a este plano. Tem de começar a desapegar-se de tudo. Literalmente tudo: das suas diferentes identidades, dos objetos, dos pertences, dos gostos, dos hobbies, das pessoas que ama.
Os vínculos que outrora o sustentavam aqui, como os alicerces de uma casa, começam a transformar-se. Precisam cair para dar espaço a que outras ligações se estabeleçam. Aqui surge, muitas vezes, o espaço para o mundo espiritual.
Em muitos casos, surgem experiências relacionadas com dimensões simbólicas ou espirituais.
Não é por acaso que muitas pessoas, ao iniciarem esta transição, começam a ver, falar ou ouvir pessoas — ou entidades — que já morreram. Estas ligações podem ser profundamente importantes.
E para quem é ateu? O desapego acontece na mesma, independentemente de se criarem novos vínculos ou não. Este é um movimento natural, não forçado.
Então, por vezes, não ter as pessoas que amamos no momento da nossa passagem — e isto não significa que não possam estar, e saber estar, ao longo de todo o processo — pode ser um ato de Amor. Muitas vezes, algo orquestrado pela própria rede da vida que nos sustenta, e que sabe mais do que nós.
É o que faz com que, perto do momento da transição, sejamos levados a sair do quarto: para tomar banho, fazer compras, descansar um pouco.
O momento da morte não é centrado nas necessidades de quem acompanha, mas sim na pessoa que está a morrer. Isso implica uma disponibilidade para aceitar que, em alguns casos, a ausência de familiares no momento exato da morte pode não ser negativa — podendo até refletir uma dinâmica própria do processo.
Acompanhamento em fim de vida exige presença plena, escuta, sensibilidade e a capacidade de respeitar o ritmo e as necessidades do outro, mesmo quando estas contrariam as nossas expectativas.


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