A doula de fim de vida não acompanha apenas a morte. Acompanha a vida na sua totalidade.


No meu percurso profissional, de mais de 24 anos, tenho observado que apenas quando nos é diagnosticada uma doença crónica, incapacitante e que nos confronta com o nosso fim de vida, ou quando alguém que amamos está nesta situação, quando o envelhecimento se torna mais expressivo no nosso corpo e nos confronta com uma maior vulnerabilidade e com grandes mudanças na nossa vida, como a necessidade de mais apoios, mudanças estruturais na nossa casa, etc., é que parece que, de repente, estas verdades universais da nossa vida (todos envelhecemos e morremos) nos obrigam a pensar sobre este assunto. Literalmente obrigados. (Engraçado que, quando planeamos o nascimento de uma criança, fazemos precisamente o oposto.)

No entanto, nestas fases agudas, de grande fragilidade emocional, onde muitos lutos também abrem espaço dentro de nós, o ser humano tem uma capacidade cognitiva muito pequena para estar plenamente presente (numa presença compassiva) para si mesmo e para os que ama. A história de quem amamos e está numa situação de grande fragilidade também toca na nossa. Os alicerces, os vínculos que nos unem, são abalados pelas mudanças que estão inevitavelmente a acontecer. Este é um movimento natural. A nossa tendência é resistir, contrariar este movimento da vida. Primeiro negamos e vamos olhando para o lado, procurando não ver o que está em frente dos nossos olhos. Fugimos e/ou até podemos hostilizar quem nos tenta confrontar com a realidade. Independentemente dos mecanismos de defesa e sobrevivência que temos (dissociação, fuga, luta, etc.), o movimento da vida não vai mudar.

Quando nos sentimos seguros, a nossa neurobiologia desencadeia o circuito vagal ventral que proporciona comportamento de conexão social, relaxamento e logo a saúde e cura (não apenas física, mas emocional e espiritual). Quando nos sentimos inseguros ativamos o sistema nervoso simpático que desperta as estratégias defensivas (luta, fuga) e o circuito vagal dorsal ativa as estratégias defensivas de paralisação (imobilização, dissociação). Assim, é importantíssimo que as pessoas que estão ao nosso lado nestes momentos difíceis criem este espaço de compreensão, presença e segurança. Não de abandono e solidão. A doula ajuda a trazer esta presença e escutas conscientes, com amor e compaixão.


E, tal como se costuma dizer que para criar uma criança é preciso uma aldeia, da mesma forma, para cuidar de alguém no seu fim de vida (independentemente da sua idade cronológica), é preciso ter o suporte da comunidade. Ninguém deveria cuidar de ninguém sozinho. Quem cuida também precisa de espaço para ser cuidado.

Ter alguém que consegue estar presente, sem a carga emocional que nos atravessa inevitavelmente nestes momentos, é muito importante. Alguém que tenha uma compreensão dos processos fisiológicos, emocionais e espirituais que estão a acontecer e que nos dê o chão que muitas vezes nos falta.

Enquanto sociedade, também nos falta muita literacia sobre os processos de envelhecimento e morte. Temos medo de falar sobre estas fases da vida, o que faz com que, quando as estamos a viver (através de nós ou de alguém que amamos), tenhamos um grande desconhecimento de como acompanhar nestas fases. Prepararmo-nos para a vida, onde estas fases se encontram infalivelmente, não atrai a morte. Potencia, sim, a nossa sabedoria para as saber viver com mais amor, presença, compaixão, conhecimentos, dignidade e qualidade de vida. Quanto mais cedo integramos a morte na nossa vida, quanto mais cedo falamos sobre a vida e os seus processos, mais redes de cuidados geramos. E também seremos, nós próprios, mais bem cuidados.

É também por esta razão que o acompanhamento por uma doula de fim de vida não precisa — nem deveria — começar apenas quando existe uma doença crónica, um diagnóstico terminal ou uma situação de grande fragilidade. Quanto mais cedo iniciamos este trabalho de reflexão, preparação e integração da finitude na nossa vida, maior é a nossa capacidade de tomar decisões conscientes, fortalecer redes de apoio e desenvolver recursos internos para atravessar as inevitáveis transições da existência. Uma doula de fim de vida não acompanha apenas a morte; acompanha a vida na sua totalidade, ajudando-nos a criar uma relação mais próxima, informada e compassiva com o envelhecimento, a vulnerabilidade, a perda e o legado que desejamos deixar.

Vemos muitas notícias sobre pessoas que vivem em lares muito mal acompanhadas, onde o valor e a dignidade humana estão muitas vezes ausentes. Os sistemas de suporte ao envelhecimento digno hoje existentes são muito escassos. Cada um de nós tem um papel importantíssimo a cumprir. Não nos podemos desligar da nossa responsabilidade. Não falar, pensar ou refletir sobre o nosso envelhecimento e a nossa morte apenas vai alimentar o sistema vigente. Para semear mudanças, é preciso fazer mudanças. Começar a plantar hoje para podermos colher amanhã aquilo que gostaríamos de receber.

A preparação para o nosso fim de vida não é uma resposta à crise. É uma prática de cuidado, consciência e amor ao longo da vida.

Que conversas sobre envelhecimento, cuidado e fim de vida sente que ainda faltam acontecer na sua vida?


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