O que significa espelhar a minha dor no outro?
O inconsciente manifesta-se na forma como estamos presentes — ou como não conseguimos estar —, nas nossas ações, nas nossas palavras, nos nossos sonhos, pensamentos, imagens.
Se tu, como a maioria das pessoas, vês a morte como sinónimo de dor e sofrimento (físico, espiritual, social, familiar, comunitário, emocional...), então é isso que vais ver refletido, como num espelho, no leito de quem está a morrer, mesmo que essa não seja a realidade da pessoa.
Não vês quem está a morrer. Vês-te a ti próprio.
E isto pode ser muito perigoso.
Vais tentar aliviar uma dor (dor total) que, na verdade, não existe no outro, mas em ti. Isto não significa que a pessoa não esteja a atravessar um processo intenso, profundamente confrontada com a sua realidade interna e externa. Mas, para podermos acompanhá-la verdadeiramente, precisamos de ter muita consciência do que é nosso e do que é dela. Precisamos de conhecer, de forma visceral, o que é um processo de transformação. Precisamos de aprender a vivê-lo em nós, enquanto estamos vivos, para podermos respeitar o caminho de parto do outro.
Já vi isto acontecer inúmeras vezes. O centro do cuidado deixa de ser quem está a morrer e passa a ser quem acompanha, porque este está a vibrar no seu trauma, no seu vórtice de angústia, no seu inconsciente, sem capacidade de se auto-observar. E, assim, suga tudo à sua volta.
A pessoa no seu leito de morte pode experienciar sinais característicos e naturais do seu processo de partida: alterações da consciência, passando mais tempo a dormir; redução da alimentação e da hidratação; visões ou experiências que podem parecer alucinações; entre outros. E, ainda assim, quem acompanha apenas consegue ver a sua própria dor.
Não consegue criar distância suficiente porque está imerso num tornado emocional que não deixa espaço para que a parte racional esteja presente. O sistema nervoso emocional assume o comando. Chega mesmo a acontecer que familiares ou cuidadores peçam mais medicação — para a dor ou para outros sintomas naturais do processo — quando, clinicamente, isso não é necessário.
Falar sobre o que acontece quando nos aproximamos do fim da vida é importantíssimo para que, ao longo da nossa própria jornada, possamos trazer o inconsciente à consciência. Trazer as sombras à luz.
Por um mundo mais amoroso, mais consciente e mais compassivo no momento em que nos despedimos desta vida.
A morte é apenas um momento entre muitos da vida infinita. Qual será o impacto que este momento tem na humanidade? No mundo visível e invisível?
Deixo-te outra reflexão.
Como vês o trabalho de parto de uma mulher e do seu bebé? Que palavras surgem? Que imagens aparecem? Como reage o teu corpo quando pensas ou falas sobre esse momento? Expande-se ou contrai-se?
Apesar da dor física, do suor, dos fluidos corporais, do sangue, das fezes, da urina, das lágrimas, dos gemidos, da extrema vulnerabilidade e da maior metamorfose corporal da nossa existência — frequentemente descrita como uma intensidade comparável à fratura simultânea de muitos ossos —, é raro alguém associar o parto ao sofrimento.
Porque será?


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