“Um corpo, muitas partes” - Entre o Eu e o Nós – Ser em Comunidade


Um discurso que ouvi na igreja recentemente remeteu-me para outros textos que já tinha escrito há tempos atrás e fez-me querer partilhar um pouco sobre o significado de pertencer a uma comunidade. Uma inquietação que tem caminhado comigo há algum tempo. Hoje falamos muito da importância da comunidade mas será que conseguimos sair da intenção para a prática? Da oração para a ação? Quais são as implicações de pertencer a uma comunidade? Que responsabilidades acarreta? Como se respeita a nossa ancestralidade? Como contribui a individualidade para o Todo? E se não o faz o que acontece?


Partilho a passagem da bíblia que ouvi e que considero lindíssima e muito simbólica para que quero escrever hoje:


O nosso corpo tem muitas partes, mas o conjunto constitui um só corpo.(…) Sim, o corpo tem muitas partes; não é constituído só por uma parte. Se o pé disser: “Eu não faço parte do corpo, porque não sou mão”, não é por isso que deixa de ser parte do corpo. E se o ouvido se pusesse a dizer: “Não pertenço ao corpo, porque podia ser um olho, e afinal não passo de uma orelha.” Seria por isso que faria menos parte do corpo? Vamos supor que todo o corpo era olho; como é que se podia ouvir? Ou então se todo ele fosse um enorme ouvido, como se poderia cheirar? Mas Deus formou-nos com muitas partes e cada uma com a sua função própria. E que coisa estranha seria um corpo humano com uma só parte! Mas não, são muitas as partes, mas um só o corpo. O olho nunca poderá dizer para a mão: “Não preciso de ti.” Nem a cabeça poderá dizer aos pés: “Vocês são-me inúteis.” De facto, algumas partes que parecem mais fracas e menos importantes são realmente as mais necessárias. E as partes que consideramos menos dignas são aquelas que vestimos com o maior cuidado. Protegemos cuidadosamente do olhar dos outros aquelas partes que não deveriam ser vistas; enquanto há outras partes que não precisam deste cuidado especial. Assim Deus juntou o corpo de tal maneira que são dadas honras extras às partes que têm menos dignidade. Assim é criada uma harmonia entre os membros, de maneira que todos os membros cuidam uns dos outros igualmente. Se uma parte sofre, todas as partes sofrem com ela, e se uma parte é honrada, todas as partes ficam satisfeitas.”

1 Coríntios 12:12-28


Uns dias antes enviaram-me um texto da Red La Muerte, e evidencio do mesmo, algumas perguntas que ficaram a ecoar em mim (https://redlamuerte.org/blog/):


Que gesto concreto realizas para honrar as origens do teu conhecimento? A quem respondes quando praticas o teu trabalho? Consegues nomear as linhagens que sustentam a tua prática? A quem darias crédito se tivesses de o fazer hoje?


São perguntas que nos retiram do lugar confortável da autonomia absoluta. Recordam-nos que ninguém constrói um caminho sozinho. O conhecimento que hoje partilhamos foi-nos entregue por muitas mãos, muitas histórias, muitas comunidades. E isto levou-me inevitavelmente a pensar na comunidade das doulas do fim da vida.


Vejo frequentemente a vontade de fazer este trabalho de forma individual, mas pergunto-me: o que acontece quando deixamos de nos ver apenas como profissionais ou voluntárias e começamos a reconhecer-nos como parte de um movimento? Um movimento que procura transformar a forma como a sociedade olha para a morte, o morrer e o cuidar.


A construção de um projeto comum pressupõe que todas as partes envolvidas possam contribuir com a sua individualidade para esse caminho e respeitem a visão da construção do projeto, que muitas vezes vai além da individualidade de cada um. É o mesmo que remar uma canoa. Cada pessoa está sentada no seu banco e rema na mesma direção, segue e respeita o ritmo da pessoa que vai na frente, ouve as indicações do instrutor que vai atrás. Tudo para que todos possam chegar bem a terra, na direção pretendida. Se cada pessoa quiser remar ao seu ritmo e para direções diferentes nem sequer consigo imaginar, mas prevejo que a canoa não sai para lado nenhum. Fica parada no mesmo sítio e todos saem dela imensamente cansados e frustrado.


Como vês a comunidade de doulas do fim da vida enquanto movimento para a sociedade? Vês um movimento crescente ou estático? Como contribuis para o movimento ou ausência dele?
Qual é o teu/meu papel na canoa, no corpo do projeto?
Será que este movimento está realmente a crescer? Ou estará a fragmentar-se em muitos percursos individuais que caminham lado a lado, mas raramente juntos? Que responsabilidade tenho eu/tu nesse crescimento — ou nessa ausência dele?


Volto então à imagem de Paulo. Um corpo, muitas partes. E volto também à imagem da canoa.
Talvez pertença a uma comunidade não signifique apenas estar presente, mas remar. Remar ao lado de outros, aceitar que nem sempre escolho o ritmo, confiar que há momentos em que conduzo e outros em que sigo. Reconhecer que o meu lugar é único, mas nunca suficiente por si só.


Afinal, um corpo precisa de todas as suas partes. Uma canoa só avança quando todos remam na mesma direção.


E eu continuo a perguntar-me: qual é, hoje, o meu/teu lugar neste corpo? Qual é o meu/teu papel nesta canoa?

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