Sono, sonho, experiências com o outro lado do véu e morte
Já pensaram que, sempre que vão dormir, está em curso uma oportunidade de experienciar uma pequena morte? Todos os dias.
Um dos sinais que, para mim, é mais fácil de identificar é a dissolução do elemento terra. (Para quem nunca ouviu falar da dissolução dos elementos no momento da morte, algumas tradições descrevem a dissolução da terra, da água, do fogo e do ar.)
O que significa isto?
Já sentiram o corpo como que a tremer quando estão a entrar num sono mais profundo? Aquele estremecimento que, por vezes, até assusta e vos faz acordar? Este sinal representa o início de uma entrega do corpo, como se este se estivesse a "dissolver" na cama.
No fim da vida observamos, muitas vezes, algo semelhante. O corpo torna-se mais pesado, mais lento, com menos energia. Já não consegue mover-se como antes. Mesmo pequenos gestos, como engolir ou abrir e fechar os olhos, tornam-se imensamente difíceis. Parece querer fundir-se com a terra, com a cama, entregando-se nos seus braços.
É um profundo exercício de relaxamento, em que o sistema nervoso parassimpático tende a ganhar predominância.
No nosso dia a dia, o sistema nervoso oscila naturalmente entre o sistema nervoso simpático e o parassimpático. Ambos trabalham em conjunto, permitindo-nos adaptar às diferentes situações da vida. No momento da morte, é importante que o parassimpático ganhe espaço. É um movimento natural do organismo.
Porque vos conto isto?
Porque acredito que, para morrermos tranquilamente, precisamos de nos entregar nos braços do sono e dos sonhos, para podermos acordar do outro lado do véu. Precisamos de atravessar esse canal de parto. De um lugar para outro.
Como enfermeira de cuidados paliativos, acompanho muitas pessoas nesta travessia. Vejo, frequentemente, uma resistência quase sobre-humana a fazer essa entrega. Resistem com todas as forças — que, nesta fase, já são muito poucas — a dormir, a sonhar, a ouvir e a sentir aquilo que os sonhos lhes revelam.
Têm medo. Muito medo.
Por vezes, o sistema nervoso simpático permanece intensamente ativado, dificultando o relaxamento e o adormecer. É precisamente o oposto daquilo que seria desejável neste momento. Imaginem um soldado em plena guerra que não pode adormecer porque sente que tem de permanecer sempre vigilante. É esta a imagem que, tantas vezes, encontro à cabeceira de quem está a morrer.
Também alguns acompanhantes — familiares e amigos —, por desconhecerem a importância do sono e do sonho neste processo, permanecem ao lado da pessoa tentando despertá-la constantemente ou respondem, com a melhor das intenções, de formas que acabam por interromper esta entrega. É preciso aprender a amar.
A pessoa que está a morrer pode assemelhar-se a um bebé que tem medo de adormecer: ao mínimo estímulo exterior, desperta novamente.
E os sonhos?
Experiências profundamente reais e, muitas vezes, transformadoras.
Na minha experiência, os sonhos podem constituir oportunidades de contacto com aquilo a que chamo o outro lado do véu. Podem surgir encontros com entes queridos que já morreram, animais de estimação ou outras presenças, guias que ajudam a criar um sentimento profundo de segurança, confiança e amor.
Esse sentimento favorece o relaxamento do sistema nervoso e a predominância do parassimpático. Se não conseguimos adormecer, também não sonhamos e, com isso, podemos perder esta oportunidade de estabelecer vínculos seguros que facilitam esta travessia.
Se pensarmos no trabalho de parto de uma mulher, sabemos que, para que aconteça da forma mais fisiológica possível, é fundamental existir um ambiente seguro, amoroso, silencioso e escuro. Só assim a ocitocina é libertada e o corpo consegue entregar-se ao processo. A dilatação, para a abertura do canal de parto, acontece.
Para mim, o parto da morte não é assim tão diferente.
Para que o véu se desvaneça e o caminho se abra, precisamos de confiar e de nos entregar.
Para além dos sonhos, existem também experiências e visualizações em estado de vigília. Algumas pessoas relatam ver os mesmos seres ou presenças de que falei anteriormente enquanto estão acordadas.
Não é extraordinário?
No entanto, estas experiências também podem despertar medo e dificultar essa entrega ao sono da morte.
Já vos disse muitas vezes que o corpo sabe morrer. Mesmo que ninguém nos diga que estamos a morrer — por conspiração do silêncio, por exemplo — o corpo sabe. Sempre.
E, inconscientemente, podemos resistir. Podemos deixar que o medo prevaleça.
Nesses casos, o trabalho de parto acontece na mesma, mas como um parto que necessita de fórceps, ventosa ou cesariana.
Há ainda outra reflexão que gostaria de deixar.
Mesmo as experiências menos amorosas ou mais difíceis que possam surgir nesta travessia — encontros com familiares com quem existiram relações difíceis, revisitar lugares dolorosos do passado, emoções antigas que permaneciam adormecidas mas vivas na memória do corpo — podem desempenhar um papel profundamente transformador.
Dor, angústia, perda, arrependimento, culpa... tudo isso pode emergir.
E talvez seja precisamente porque o corpo se está a preparar para atravessar este canal de parto com mais leveza, mais clareza, mais luz e menos sombra.
Esta possibilidade continua a fascinar-me.
Tal como no nascimento existem contrações que despertam o bebé para a vida na Terra, também nesta travessia podem existir movimentos internos que nos preparam para aquilo que vem a seguir.
Podemos não curar a doença de que padecemos, mas existe uma oportunidade de transformar as nossas dores emocionais, espirituais e relacionais.
O Christopher Kerr descreve precisamente esta realidade no livro Death Is But a Dream. A sua investigação mostra que continuamos a crescer e a evoluir no momento da morte.
Não deixamos de viver porque estamos a morrer.
Pelo contrário.
Vivemos profundamente.
Por um mundo mais amoroso e compassivo.
Ana Catarina Infante
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